sexta-feira, 11 de junho de 2010

DELÍRIO - LAURA RESTREPO

Um excerto deste livro (editado em Maio pela Editorial Presença em português, com tradução de Regina Louro), para mim um escape ao quotidiano cinzento passado na escola onde vibram, num mesmo tom, todas as obrigações de final de ano.
Com uma capa "de pasmar", que é um verdadeiro prazer segurar com as duas mãos, este romance é um belo passeio pelo mal que provoca no ser humano, um país imerso na total decadência... Colombia e as drogas, a lavagem de dinheiro, a luxúria, a ganância ... através de uma narrativa rica de vozes, de pormenores que prendem a nossa atenção, pela riqueza interior das personagens que vão construindo as histórias, os mitos, com o suspense que nos empurra com violência até às últimas páginas. O amor de Aguilar por Agustina, esse é posto à prova a toda a hora, engrandecendo este sentimento que sobrevive a tudo.


«Aguilar diz que desde que a mulher está estranha se tem dedicado a ajudá-la, mas que só consegue desagradar-lhe e importuná-la com os seus inúteis desvelos de samaritano. Por exemplo ontem, altas horas da noite, Agustina ficou colérica porque queria enxugar com um trapo o tapete que havia ensopado, obcecada pela ideia de que deitava um cheiro esquisito, e que me dá um desgosto horrível ver o monte de vasilhas de água que ela vai colocando por todo o apartamento, deu-lhe para celebrar baptismos, ou abluções, ou vá-se lá saber que rituais, invocando uns deuses de sua invenção, lava e esfrega tudo com um esmero desmedido, esta minha indecifrável Agustina, qualquer nódoa na toalha ou porcaria nos vidros tornou-se-lhe um tormento, sofre por haver pó nas cornijas e fica irascível com as marcas de lama que segundo diz os meus sapatos vão deixando, até as próprias mãos lhe parecem nojentas embora as esfregue uma e outra vez, já estão vermelhas e secas, as suas belas mãos pálidas, porque não lhes dá tréguas, nem me dá tréguas a mim, nem sequer a si própria. Diz Aguilar que enquanto celebra as suas cerimónias dementes a mulher vai dando ordens à tia Sofi, que se ofereceu para menino de coro complacente, e as duas vão arrastando cacos de água como se assim conseguissem exorcizar a ansiedade ou recuperar um pouco do controlo perdido, ao passo que ele não descobre que papel desempenhar nesta história nem sabe como travar o furor místico que vai invadindo a casa sob a forma de fileiras de xícaras de água que aparecem alinhadas contra os frisos das paredes ou sobre os peitoris das janelas, De repente abro uma porta e viro sem querer uma bacia de água que Agustina tinha escondido lá atrás, ou vou a subir ao segundo andar e sou impedido pelas panelas cheias de água que ela colocou em cada degrau. Como é que eu chego lá acima, tia Sofi, se Agustina inutilizou a escada?, Por ora fica cá em baixo, Aguilar, tem um pouco de paciência e não tires daí essas panelas, que já sabes o fanico que lhe dá, E onde é que comemos, Agustina minha, se encheste a mesa de pratos com água? Pô-los em cima das cadeiras, na varanda e à volta da cama, o rio da sua loucura vai deixando um rasto até nas estantes dos livros e nos armários, por onde passa vão-se abrindo estes quietos olhos de água que fitam o nada ou o mistério, e mais do que desgosto o que eu sinto é a agonia de um fracasso, a angústia de não saber que bolhas são essas que lhe rebentam por dentro, que peixes venenosos lhe percorrem os canais do cérebro, de maneira que não me ocorre nada melhor do que esperar por um descuido seu para esvaziar vasos e pratos e baldes e devolvê-los ao seu lugar na cozinha, e a seguir pergunto-te porque me olhas com ódio, Agustina, meu amor, será que não te lembras de mim (...)»


In Delírio, Laura restrepo, pp.16, 17

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