segunda-feira, 3 de agosto de 2009

La Fleur en Papier Doré - Rue Alexiens 55, Brussels, Bélgica








Que lindo café que Magritte frequentava. Li numa página da net consagrada a este lugar de culto que Fleur en papier doré foi remodelado mas que se manteve com inteligência a sua alma de "bistrot" histórico. Foi fundado por G. Van Bruaene como uma espécie de cabaré e num passado recente era habitualmente frequentado por Magritte e tido como ponto de encontro dos surrealistas de Bruxelas (Plisnier,Marien,Scutenaire, Mesens,...). O seu interior conserva uma decoração heteróclita feita de "objectos-disparates", colagens e caricaturas. Funcionou como abrigo dos encontros " Permanences Poétiques" e foi de 1981 a 2000 sede social da Associação "Grenier Jane Tony". Que sítio encantador para beber uma taça de vinho com amigos... A arte surrealista desprende-se das paredes e dos objectos em exposição de forma explícita. E o tom dourado do papel de baptismo deste café invade o ambiente e transporta-nos para um templo antigo com cheiro a pétalas de rosa.

A excentricidade e a provocação de Magritte lêem-se neste café num aviso artístico que é assim ( e faz lembrar a obra "Os dois Mistérios" onde pinta um cachimbo e o nega como realidade, imediatamente a seguir com a frase: "Ceci n'est pas une pipe."):

Magritte faz equivaler as palavras às imagens e parte do pressuposto de que "Palavras ou imagens é a mesma coisa." Acrescenta que se a poesia é uma arte particular baseada na linguagem (tal como disse Paul Valéry), isso deve ser válido tanto para a poesia escrita como para a poesia em imagens. Magritte aposta em muitos trabalhos artísticos na inversão plausível do sentido habitual das coisas, provocadas por paradoxos, tal como na poesia escrita. Nele encontramos duas posturas pois para si " a inteligência da exactidão não impede o prazer da inexactidão". Gosto particularmente da maneira como ele institui a verdade na arte e como torna a realidade numa fantasia absoluta. Um pedaço de nuvem a entrar pela porta entraberta de sítio nenhum. (Se pudesse pendurava este quadro no quarto da minha amiga Anabela para ela ter sempre à cabeira a nuvem que a deslumbra e uma porta aberta para a sua metafísica. Cedo-o em ponto grande para impressionar bastante.)

Magritte fascina-me tanto com a sua obra como a verdadeira poesia. E é a sua procura constante de pontes entre a realidade e o mistério que o torna naturalmente poético. Nas páginas do Livro Magritte de Jacques Meuris, editado pela Tashen (que ofereci ao Paulo para me ofertar a mim mesma, confesso) tive a oportunidade de conhecer mais um pouco da sua personalidade artística e apercebi-me, entusiasmada, de que ele se correspondeu com André Breton (o autor do Manifesto Surrealista) durante muito tempo. No entanto nos finais dos anos 50, Magritte decepciona-se fortemente com Breton pois acha que ele deixou de procurar a "pedra filosofal" desta estética, revelando-se assim um guardião do surrealismo mais dogmático do que ele. O facto de em tempo de desilusão, nascida do contexto de guerra, Magritte fazer prevalecer na sua obra o sol sobre a noite, confere-lhe uma força revolucionária tão grande que o distingue das obras de muitos outros pintores surrealistas.Fiquei a gostar ainda mais dele por sentir que as suas convicções artísticas ultrapassam o domínio da arte, invadindo a sua vida de forma que não se distingue a convicção artística da convicção humana. Gosto quando ambas se confundem porque pressinto que só dessa forma ela é pura.

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